sábado, 12 de novembro de 2011

RECADO

"O estudo da gramática não faz poetas. O estudo da harmonia não faz compositores. O estudo da psicologia não faz pessoas equilibradas. O estudo das "ciências da educação" não faz educadores. Educadores não podem ser produzidos. Educadores nascem. O que se pode fazer é ajudá-los a nascer. Para isso eu falo e escrevo: para que eles tenham coragem de nascer. Quero educar os educadores. E isso me dá grande prazer porque não existe coisa mais importante que educar. Pela educação o indivíduo se torna mais apto para viver: aprende a pensar e a resolver os problemas práticos da vida. Pela educação ele se torna mais sensível e mais rico interiormente, o que faz dele uma pessoa mais bonita, mais feliz e mais capaz de conviver com os outros."
Rubem Alves

domingo, 16 de outubro de 2011

HOMENAGEM AOS PROFESSORES DE TODO MUNDO

PROFESSORES APAIXONADOS

Texto de Gabriel Perissé


Professores e professoras apaixonados acordam cedo e dormem tarde, movidos pela ideia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato. Apaixonar-se sai caro!
Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro. Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração. Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.

Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação pela USP e autor do livro O professor do futuro.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Veja a minha reflexão em forma de artigo - o que podemos fazer para contribuir para a necessária transformação?

Ônibus 174: um olhar sobre a violência urbana e a exclusão social

 

Resumo: Este artigo tem como objetivo fazer uma análise do filme Ônibus Linha 174 (José Padilha, 2002) como mais uma interpretação do episódio narrado e comentado por uma multiplicidade de textos. O gênero da película é o documentário, que foi produzido por José Padilha e Marcos Prado, com a direção do primeiro, fotografia a cargo de César Morais e Marcelo Guru e com edição de Felipe Lacerda. A fita tem como tema central a violência urbana, porém este artigo aborda outros temas, evitando a repetição daquilo que já foi dito por muitos – grandes especialistas e até o cidadão comum. Na verdade, esse filme – texto principal da minha pesquisa – transforma-se em um pretexto para dar um direcionamento à reflexão que me proponho realizar, uma vez que o foco motivador de minha análise é o protagonista das duas histórias paralelas narradas pelo filme: o jovem Sandro Rosa do Nascimento, que se transforma em uma figura arquetípica no contexto social das histórias, dos cenários e depoimentos mostrados por Padilha. Durante a discussão surge outro personagem importante para a análise que busco realizar – Sandra Mara Herzer (1962-1982) – uma jovem cuja trajetória de vida permite-me realizar um paralelo entre os dois visando à compreensão de como se deu a construção desses dois personagens, que denunciam um contexto grave e multiplicador de muitas outras histórias semelhantes às suas. É indiscutível que, embora ambos tenham alcançado visibilidade até mesmo internacional, há uma infinidade de sandros e sandras totalmente invisíveis, vivendo pelas ruas e instituições “cuidadoras” de menores, passando pelas mesmas etapas da ignóbil metamorfose que os levou ao desespero na cena final de suas curtas vidas.


Palavras-chave: educação e letramento, violência, exclusão, preconceito e visibilidade social, criminalidade e tragédia urbana.

Texto completo: PDF

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O NAVIO NEGREIRO DE CASTRO ALVES - UMA POSSIBILIDADE ATUAL DE LEITURA.

O que um crítico literário no ano de 2007, teria a dizer sobre um poema escrito no século XIX, com o tema social mais polêmico daquela época? Haveria uma ponte entre aquele tema e a nossa atualidade? 

Não há como ignorar o pungente drama de todas estas pessoas angustiadas, oprimidas e aflitas que vagam pelo mundo em busca da vida melhor que lhes escapa entre os dedos. Falta-nos coragem, competência para mudar o curso da história atual. Mas há muitos condoreiros modernos fazendo a sua parte. Muitas vezes, cruelmente silenciados, por vezes tão jovens como Castro Alves.   A história parece se repetir em outros contextos e com novos personagens.  

O texto completo está aqui.

Estes são dois trechinhos de um texto publicado no Overmundo há quatro anos. Hoje eu fiquei assustada ao certificar-me que ele já tem está quase alacançando a marca dos 30 mil downloads.


Convido-os para que leiam e reflitam sobre o tema proposto.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Conclusão do memorial

Esse memorial foi extraordinário, entre várias, pude perceber o potencial de meus colegas de trabalho, que de alguns eu desconhecia as suas experiências com a docência. Também no curso conheci novos autores, novas reflexões sobre o tema abordado.
Eu fui escolhida para ser parceira por uma escritora de primeira categoria, que me acolheu e me passou muito conteúdo. Obrigada querida e sempre pode contar comigo, e nunca mais fale que “sou analfabeta digital”, você sabe muito e tem muita facilidade.  
Sempre estive envolvida de certa forma com a informática e pela primeira vez fiz um blog, tenho uma grande dificuldade de expressar o que eu penso na escrita, mas dessa vez sai um pouco do casulo e tive que escreve.  Foi importante.
Pretendo continuar minha formação, hoje foco a modalidade a distância. O meu primeiro passo dado foi o inicio da especialização em Novas Tecnologias da Informação na Educação e o meu segundo passo será a especialização (se Deus quiser) em Ensino a Distancia e ainda almejo  o Design Instrucional.
Aguardo as aulas presenciais com muita ansiedade.
Agradeço a Rita e a Olga pela orientação,
Abraços virtuais,

Lu

sexta-feira, 15 de julho de 2011

QUEM SOU EU FORMADOR HOJE E QUAL O MEU PROJETO DE FORMAÇÃO CONTINUADA?

Nesse espaço de formação, que é a EGOV-DF, tenho vivido diversos momentos que me trazem a oportunidade de muitas aprendizagens. Em relação ao curso que estamos concluindo a primeira fase, o primeiro grande desafio salta aos nossos olhos. O próprio fato do curso FFP1 ser na modalidade EAD. De imediato, eu teria de avançar no meu processo de “alfabetização” tecnológica, tanto para realizar as tarefas como para poder interagir com os colegas e tutores.  E, assim, fui seguindo caminho. 

Um segundo desafio – o trabalho em parceria no blog. Quem seria o meu par? Eu quase não conhecia ninguém ainda. Lembrei-me da Luciana porque sempre que ela ia roubar um cafezinho em nossa sala, foi sempre muito atenciosa e delicada comigo. Quando, inclusive, chegou a me ajudar em algumas coisinhas da tecnologia, que é um ponto forte da sua formação.  Aí, a indecisão, o medinho: “e se ela me disser não quando a convidar”... Convido ou não? Mas, se não for ela, quem poderá ser? Ela é a parceira ideal neste momento, dizia como meus botões. Conversava comigo mesma: “Ela é bem mais letrada do que eu, em tecnologia, é uma das pessoas com que mais me relaciono e com mais liberdade desde que cheguei aqui na Escola. “Convido ou não convido?” – convidei, ela topou e fizemos o trabalho. Com um pouco de dificuldade por eu estar ajudando no Censo Previdenciário. Geograficamente, portanto, estávamos meio distantes e com dificuldade de acertamos nossos horários para encontros.

A formação contínua é um processo infinito, dura enquanto viv@s estivermos, penso eu. Não se trata de participar de eventos aqui e ali, apenas para somarmos pontos para as nossas progressão e promoção funcionais. Não pode ser apenas um instrumento destinado a suprir deficiências de uma formação, tapar buracos, fazer bonito em congressos etc.

Assim, concluo essa primeira fase do nosso curso de formação, mais alfabetizada tecnologicamente, porque adquiri maior desenvoltura na utilização das ferramentas virtuais, que são fundamentais a EAD. Estou também mais segura na interação com os colegas e tutores, além de ter adquirido mais conhecimento sobre os pressupostos pedagógicos que deverão permear toda a nossa formação contínua e toda a nossa atuação como futuros formadores da EGOV.

Um ponto forte do curso foi a insistente proposta de reflexão sobre o formador aprendente. Nesse sentido, peço a Martha para citar suas palavras: “Ficou comprovada a teoria que Lev Vygotsky defendia: é no convívio social que realmente aprendemos. Em nossos fóruns ficou evidenciada a riqueza de comentários e como a convivência virtual nos fez parceiros na busca de explorar as leituras com reflexão crítica para repensar a nossa prática na busca do aperfeiçoamento do trabalho na EGOV.”

Estou ansiosa para começarmos a fase presencial, aproximar-me mais de todos para que juntos possamos continuar aprendendo. Sou aprendente e sonhadora. Por isso, como já disse anteriormente, a esperança é o meu alimento primordial.

O meu projeto de formação continuada está baseado na minha disposição em me dedicar a essa possibilidade e continuar aproveitando todas oportunidades para estudar, refletir e compartilhar o conhecimento e os sonhos. Aqui, na ENAP e em outras eventuais oportunidades que surgirem. Como formadora, meu sonho é ser capaz de contaminar meus alunos com o meu entusiasmo e esperança, apesar de ter idade para ser avó de alguns colegas.

Sou grata a todos. Por tudo.

DA PARCERIA, COMO A MELHOR FORMA DE ORGANIZAÇÃO DAS SOCIEDADES HUMANAS.

Todas estas imagens refletem a atitude diferente que prevalecia no Neolítico quanto ao relacionamento entre mulheres e homens – atitude em que predominava a ligação em vez da hierarquização. Como escreve Gimbutas, ali

O mundo do mito não era polarizado em feminino e masculino, como era entre os indo-europeus e muitos outros povos nômades e pastoris das estepes. Os dois princípios se manifestavam lado a lado. A divindade masculina na forma de um homem jovem ou animal macho aparece para afirmar e fortalecer os poderes da fêmea criativa e ativa. Nenhum se subordina ao outro: complementando-se mutuamente, seu poder é redobrado. 

Muitas vezes, percebemos que a discussão sobre a existência ou não de um matriarcado, que eclode periodicamente em textos acadêmicos e populares, parece surgir mais em função do paradigma hoje prevalecente  do que em função de qualquer evidência arqueológica. Ou seja, em nossa cultura edificada sobre ideais de hierarquia e estratificação, e pensamentos do tipo “dentro do grupo” versus “fora do grupo”, diferenças rígidas ou polaridades são enfatizadas. Nosso pensamento é do tipo “se não é isto tem que ser aquilo”, marcado pela dicotomia “ou/ou”, um modelo de pensamento que os primeiros filósofos já viam com desconfiança pelo risco de nos conduzirem a uma leitura simplista e errônea da realidade. De fato, psicólogos de hoje descobriram que tal atitude sinaliza um estágio inferior de desenvolvimento emocional e cognitivo.
Mellart parece ter tentado superar essa noção ou/ou, o entrançado “se não for patriarcado, tem de ser matriarcado”, quando escreveu o seguinte: “Se a Deusa presidia a todas as atividades de vida e morte da população de Catal Huyul neolítica, de certa forma seu filho também. Mesmo que seu papel se subordinasse totalmente ao dela, o papel masculino na vida parece ter sido plenamente percebido” e “totalmente subordinado”, de novo nos vemos enredados no pressuposto cultural e linguístico inerente a um paradigma dominador: o de que as relações humanas devem se encaixar em algum tipo de ordem escalonada entre superiores e inferiores.
Contudo, comtemplado de um ponto de vista estritamente analítico ou lógico, a primazia da Deusa – e com isso a centralidade dos valores simbolizados por seus poderes de nutrição e regeneração e encarnados no corpo feminino – não leva à conclusão de que as mulheres dominavam os homens naquela sociedade. Isso fica mais evidente se fizermos uma analogia com o único relacionamento humano que, mesmo nas sociedades de dominação masculina, em geral não é conceituado em termos de superioridade/inferioridade: o relacionamento entre mãe e filho. E a forma como o percebemos pode ser um resquício da concepção pré-patriarcal do mundo. A mãe adulta, maior e mais forte, é evidentemente superior à criança, menor e mais fraca em termos hierárquicos. Mas isto não significa que normalmente a criança seja vista como inferior ou menos valiosa.
Através da analogia com esse arcabouço conceitual diferente, podemos perceber que o fato de a mulher desempenhar papel central e vigoroso na religião e na vida pré-histórica não significa necessariamente que os homens eram percebidos e tratados de forma subserviente. Isto porque tanto homens como mulheres eram filhos da Deusa, como eram filhos de chefes de família e clãs. E embora isto conferisse às mulheres grande poder, usando da analogia com o relacionamento mãe-filho dos tempos atuais, vemos que tal poder correspondia mais a responsabilidades e amor do que opressão e medo.
Em suma, diferente da visão ainda prevalecente do poder como o poder representado pela Espada – o poder de tirar ou dominar –, uma visão muito diversa do poder parece ter sido a norma naquelas sociedades neolíticas que adoravam a Deusa. Sem dúvida, a visão do poder “feminino” de nutrir e dar nem sempre era adotada, pois aquelas eram sociedades constituídas de pessoas de carne e osso, não utopias de faz-de-conta. Mas, ainda assim, esse era o ideal normativo, o modelo a ser imitado tanto por mulheres como por homens.
A visão do poder simbolizada pelo Cálice – para a qual proponho o termo poder de realização, contrapondo-se ao poder de dominação – reflete obviamente ante um tipo de organização social muito diferente daquela à qual estamos acostumados. A partir das evidências do passado examinadas até agora podemos concluir que aquela organização social não pode ser chamada patriarcal, pois não se enquadra no paradigma dominador de organização social. Contudo, e valendo-nos da perspectiva da Teoria da Transformação Cultural que vimos desenvolvendo, ela se encaixa na outra alternativa de organização humana: uma sociedade de parceria, na qual nenhuma metade da humanidade é colocada acima da outra, e nenhuma diferença é igualada a inferioridade ou superioridade.

FONTE: Eisler, Riane. O Cálice e a Espada: nosso passado, 
nosso futuro. São Paulo: Palas Athena, 2007. (pp.70-72)

A grande tese da autora é que antes da cultura patriarcal teria existido uma sociedade que era organizada da maneira mais democrática possível - pela parceria. A colaboração, a solidariedade e a cooperação davam o tom das relações pessoais em todos os âmbitos da sociedade. Só neste tipo de relação, desde o âmbito familiar,  é possível vivenciar a desejável harmonia de uma relação verdadeiramente amorosa e enriquecedora.

Veja a apresentação da obra, segundo a Editora Palas Athenas: O livro O cálice e a espada resulta de uma pesquisa que levanta evidências arqueológicas e históricas que provam ter havido, em um passado distante, sociedades pacíficas e igualitárias organizadas em torno da cooperação e do respeito. A autora expõe-nos os paradigmas da realidade contemporânea, mostrando a chocante transformação trazida por culturas de pastores nômades e guerreiros, que impuseram forma de viver baseado no poder da força. Eisler aponta-nos o caminho para um futuro viável, para o convívio de uma forma mais saudável e respeitosa, alinhando escolhas com valores de parceria - o cuidado amoroso, a inclusão e a sustentabilidade.

Eu decidi trazer esse texto para o blog porque está realmente me deixando encantada – ainda não terminei de ler o livro. Contudo, o principal motivo é que a relação de parceria, que a autora nos apresenta, é a forma de organização mais adequada ao ambiente educacional. Dá pra sentir na pele, o quanto todos saímos perdendo quando alguém se fecha e não dialoga e não expôe, não compartilha e nem lança as mãos e as ideias para contribuir na construção de um projeto comum. 

Quando a parceria não acontece, todos ficamos mais empobrecidos – o ambiente, os formadores e os formandos. Além disso, corremos o risco de nos "deformar" e não de nos "formar."

Joana Eleutério
Brasília. 16/08/2011.

terça-feira, 12 de julho de 2011

AMEI ESTAS PALAVRAS - ELAS EXPRESSAM A MINHA VISÃO SOBRE O TEMA.


Na prática, não há garantia de que aprender uma dada quantidade de técnicas de escrita nos faça escrever melhor. Escrever, como ler, será efetivamente um hábito qualificado se feito com prazer.

É ao esculpir um texto que se percebe o quanto é insuficiente decorar regras de português ou macetes rápidos de construção retórica. Um bom texto denuncia o quanto a sério levamos o prazer de ler e escrever. O quanto a sério levamos tudo o que fazemos com efetiva entrega e delícia.

    Luiz Costa Pereira Júnior - Carta ao Leitor. Revista Língua Portuguesa nº 69. Julho de 2011.



                                                             

sábado, 2 de julho de 2011

NOTAS DO MÓDULO V/FFP1 - Texto: A perturbação do contrato didático e o gerenciamento dos paradoxos (Disponível em http://www.if.ufrgs.br/public/ensino/vol8/n2/v8_n2_a4.html. Acesso em 30/06/2011, às 19:26h)


I - O Contrato Didático descreve as relações entre o professor, o saber e o aluno e faz alusão a um paradoxo existente na relação didática (Brousseau, 1986). De certa forma, esse paradoxo também a caracteriza. Assim, temos uma terminologia específica e fenômenos típicos a essa circunstância pedagógica:

•    O que é esse contrato? – Regras implícitas e explícitas, mútuas responsabilidades, jogo de expectativas entre professor e aluno, diferentes saberes e relação assimétrica que faz o aluno depender da mediação do professor.

•    O paradoxo: O professor não deve deixar tudo explícito ao aluno para não colocar em risco a sua aprendizagem. Porém, caso não faça a necessária mediação, romperá com esse “acordo pedagógico”. 
                      + Gerenciar esse paradoxo é um dos papéis do professor.

•    A introdução intencional de pequenas “perturbações” – Inovações inesperadas e intencionais são apresentadas ao aluno (número excedente de dados, supressão de dados conhecido ou situações que solicitam a articulação de conhecimentos). Nesse momento, ocorre a quebra a estabilidade desse contrato, mas não contrato.

•    Essa perturbação exigirá reflexão qualitativa e investimento criativo
, do professor e do aluno. Isso evitará automatismos e os manterá abertos a avanços sem a ruptura do Contrato Didático então estabelecido.

•    A confiança natural
que o aluno deposita no professor e a perspectiva do professor em relação ao futuro aprendizado do aluno são aspectos definidores da típica relação assimétrica entre esses dois atores, que são a razão da existência da relação didática.

•    Os alunos que assimilam as regras do jogo
terão mais facilidade para obter mais sucesso em relação às atividades propostas devido às exigências cognitivas implícitas no processo.

•    “Entrar no jogo didático
” é ser capaz de identificar o que é irrelevante e o que é importante para (ou na) disciplina ministrada.

•    Os alunos que não conseguem fazer essa distinção
ficam fora da relação didática e apresentarão um quadro de indesejável insucesso, o que os fará sentirem-se deslocados.

•    O professor deve ter um cuidado especial
para dar o suporte necessário: orientações e atividades visando trazer esses alunos para dentro do jogo didático. No entanto, em turmas grandes, isso é muito difícil.

•    Cuidado! – Há riscos pra quem conseguiu entrar no jogo:
ao mesmo tempo em que o aluno se sai bem na relação didática, poderá ficar engessado em um processo padronizado, pasteurizado e fechado a qualquer tipo de inovações, que poderão surpreendê-lo e jogá-lo para fora da relação didática.

•    Esse engessamento dificultará a relação entre o professor e o aluno e também entre os saberes, dando origem ao pior dos riscos: ninguém garante que esse aluno estará aprendendo, quando duas lógicas devem ser observadas: 
  
+“A lógica da sala de aula – dar as respostas que o professor quer;
+ A lógica de fora da escola – as concepções alternativas sobre a leitura que se pode fazer da “realidade”.

•    DUAS QUESTÕES:


+ Como mediar esses dois mundos – O paradigmático, das disciplinas científicas, e o mundo dos alunos?

+ Como pôr o aluno em jogo na relação com os saberes paradigmáticos?

•    É necessário buscar alternativas pedagógicas que possibilitem
colocar o aluno no jogo da relação didática, sem engessá-lo em atividades empobrecidas ou empobrecedoras, a fim de proporcionar-lhe oportunidades de ajudá-lo a estar aberto a inovações.


•    É necessário buscar alternativas pedagógicas que (re)coloquem o aluno no jogo e lhe tire o gesso das atividades padronizadas, proporcionando-lhe oportunidades de estar aberto a inovações – dentro e fora da escola.

“Esse assunto é muito importante no processo de aprendizagem e deveria ser tratado também na formação inicial dos professores, pois confiar na sensibilidade individual de cada profissional não parece ser uma boa estratégia.”

Ao analisar duas situações didáticas, os autores procuram fazer uma discussão sobre as formas de gerenciar o Contrato Didático em sala de aula, especialmente em relação ao paradoxo definido por Brousseau. De um lado, o professor precisa orientar sua prática de modo a não deixar tudo explícito ao aluno para não colocar em risco a aprendizagem; de outro lado, se o professor não faz a necessária mediação, rompe com o contrato na relação didática.

II – CONTRATO DIDÁTICO: UM INSTRUMENTO DE ANÁLISE DA AÇÃO PEDAGÓGICA

•    Pressuposto: “há um conhecimento de referência que, ao ser socializado, configura uma relação didática, a qual se coloca principalmente a serviço do aprendizado do aluno.”.

•    O gerenciamento dessa relação entre o professor, o aluno e o saber é feito por meio de um conjunto de regras que normatizam o sistema de obrigações responsabilidades desses participantes no desenrolar da situação de ensino.

•    Brousseau (1986) – em analogia direta com o “Contrato Social” de Rousseau (1762), dá a esse conjunto de regras o nome de Contrato Didático.
 
O Contrato Didático administra as relações entre professor e aluno no processo de ensino-aprendizagem de um dado saber.

•    As responsabilidades do professor do aluno são distintas – o professor deve administrar o contrato, procedendo de modo a respeitar o papel do aluno no processo de ensino-aprendizagem que é compartilhado por eles.

o     O professor deve favorecer o desenvolvimento cognitivo do aluno
, propiciando-lhe as condições imprescindíveis para o processo de apropriação do conhecimento.
o    O aluno, que também estará diante de uma situação paradoxal porque, ao aceitar que o professor lhe apresente situações facilitadoras que induzem aos resultados desejados, perderá espaço de atuação, o que provavelmente, não permitirá que ocorra a desejada apropriação do conhecimento. Contudo, se o aluno rejeitar a mediação do professor, inviabilizará o aprendizado em função das dificuldades inerentes ao próprio saber, descaracterizando a relação didática, nos termos de Brousseau (1986).

•    As concepções de mundo, de ciência e de ensino do professor também definem as características de um Contrato Didático, uma vez que influenciam os objetivos do curso e as decisões didáticas tomadas na sala de aula. Em situações em que o ensino é concebido como mera transmissão-recepção de conhecimentos, a prática pedagógica comumente adotada será a da aula expositiva, onde predominam definições, classificações, conceituações, apresentação de fórmulas e algoritmos.

•    O grande risco
será oferecer atividades valorizadas e estimuladas de forma mecânica, esvaziando-as de significação, o que desmotiva os alunos.

•    O Contrato Didático regido por essa concepção empirista de conhecimento, administrando uma prática de ensino tradicional e domesticadora (FREIRE, 1987), com a marca da arrogância didática que legitima práticas de ensino autoritárias e fortalecem relações de heteronomia.

•    Ao contrário, no Contrato Didático que vê o ensino como mediação
, os alunos são protagonistas e são movidos e motivados por situações-problema que os desafiam e geram interesse.

o    A criatividade, a tomada de decisão e o exercício da autonomia têm lugar garantido e se desenvolvem no decorrer do processo de aprendizagem.

•    Essa perspectiva epistemológica e pedagógica
promove a interação professor-aluno-saber e a relação dialética entre eles. O aluno, que terá vez e voz, será constantemente provocado por situações novas, conduzindo-o à autorreflexão, à proposição de hipóteses, à discutição das próprias ideias e à reflexão crítica. Essa situação facilita e até promove a idealizada apropriação do conhecimento.

•    A relação assimétrica tende a permanecer inalterada
, mas se o professor administrar devidamente o tempo didático, dominar bem o conteúdo e assumir a responsabilidade pelo desenho do contrato didático o aluno encontrará espaço para atuar e tornar-se sujeito de seu aprendizado. Será um parceiro e não um comandado. Que as palavras do brilhante Pedro Demo nos avalize, tal como pudemos ver no módulo III do curso FFP1-EGOV-DF.

•    Ao desempenhar o seu papel, o professor
depara-se com o problema do gerenciamento desses paradoxos que aparecem na relação didática.

o    Administrar tais paradoxos do Contrato Didático por meio da ruptura não é a melhor opção, pelas consequências indesejáveis daí advindas, como a perda de confiança e a descaracterização dos papéis de cada um dos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. A perspectiva dialética deve orientar a visão dualista de ruptura-permanência do Contrato Didático admitindo-se que alguns fatores do contrato são dinâmicos, mas outros permanecerão inalterados.

III O GERENCIAMENTO DOS PARADOXOS


É importante enfatizar que a categoria dinâmica do contrato não pode ser confundida com a ruptura dele, porque esse dinamismo deixa inalterados os papéis do professor e do aluno no processo e mantendo a confiança mútua entre o professor e o aluno.

•    Instabilidade e ruptura na relação didática – Atendendo as próprias expectativas, cada parceiro procura manter-se no papel que lhe cabe e a tendência natural é que a estabilidade seja mantida. Contudo, não se pode perder de vista que a ruptura do Contrato Didático poderá ocorrer por uma transgressão de qualquer uma das partes, quando o sistema de obrigações recíprocas pode ser desrespeitado e a confiança entre elas ficará desestabilizada.


•    Instrumento de análise da relação professor-saber-aluno – O Contrato Didático recebe influência de fatores históricos e sociais, implicando a evidente necessidade de que o professor seja o mediador indispensável entre o saber (uma prerrogativa dele), e o aluno (com uma estrutura cognitiva particular). Tal mediação ocorre em um dado contexto sociocultural e histórico. Portanto, a responsabilidade do bom ou do mau desempenho escolar do aluno não pode ser imputada às determinações da natureza humana, mas àquelas de natureza socioculturais.

•    Perspectiva dialética – Nessa perspectiva, o professor/mediador no processo de ensino, constata que a constituição do sujeito se dá nas relações entre os sujeitos, em função da subjetividade de cada um, como produto dessas relações.  “O senso comum do aluno é o ponto de partida para a aprendizagem, e o professor deve convidá-lo a buscar o conhecimento científico, de modo que o aluno perceba a dinamicidade da ciência como um processo em permanente construção e desenvolvimento, não se limitando a estudar apenas os resultados. O aluno deve ter um papel ativo (Pedro Demo); daí que a qualidade da relação entre o professor e o aluno seja tão determinante para o processo em questão.

•    Pequenas “perturbações” no contrato estável – podem ser uma estratégia para o gerenciamento dos paradoxos: inovações, dados inesperados ou a supressão deles etc. “Essas situações podem ser consideradas o motor da relação didática, porque caracterizam tensão positiva e intencional que leva o aluno a uma reflexão qualitativa, evitando automatismos, uma vez que será difícil antecipar soluções.”.

IV APRESENTAÇÃO DOS EXEMPLOS – Os autores trazem exemplos aplicados ao ensino de física e anatomia humana.

Esse tópico é finalizado com ênfase nos seguintes constatações dos autores: 

(a) as dificuldades que os alunos têm para transpor o conteúdo para situações novas;
(b) a participação qualitativa do aluno na resolução do exercício que extrapola a memorização de nomenclaturas e resgata conhecimentos anteriores de fisiologia;
(c) o problema vai além de automatismos e solicita a participação criativa do aluno, mesmo sabendo que, para sua resolução, há uma sequência invariável que deve ser seguida.

V ANALISANDO OS RESULTADOS – A partir dos exemplos apresentados, os autores consideram que os papéis dos envolvidos na relação didática permaneceram inalterados e que a tensão provocada pela presença das situações novas ficou dentro do grau de incerteza necessário à manutenção contrato, garantindo a confiança necessária entre professor e aluno e viabilizando a aprendizagem.  O aluno entrou no jogo por perceber que a tensão provocada foi proposital para dar dinamicidade à ação pedagógica. Isso mostra que “a intervenção consciente do professor, provocando perturbação no contrato, é um instrumento pedagógico de grande valor no gerenciamento dos paradoxos presentes no Contrato Didático.”.

Os autores defendem ainda que essa abordagem qualitativa levará o aluno a entender melhor o que os problemas de fato nos dizem, gerando maior significação à busca de solução. Esse aluno poderá melhor articular os conceitos e conhecimentos – novos e antigos – para compreendê-los em uma perspectiva menos fragmentada e fragmentária.


VI CONSIDERAÇÕES FINAIS – discutindo diversos aspectos do problema apresentado, os autores concluem o texto dizendo-nos:

Dessa forma, a perturbação do Contrato Didático não consiste simplesmente em propor desafios ao aluno, pois, enquanto estes apenas aumentam o grau de dificuldade dos problemas, a perturbação difere qualitativamente na medida em que está voltada para o gerenciamento das imposições paradoxais do contrato. Ademais, procura reorientar a relação entre professor, saber e aluno, propondo alguns questionamentos, tais como: que aluno queremos formar e para qual sociedade?

VI NOTAS FINAIS - Algumas conclusões pessoais na perspectiva de nossa futura docência.

No penúltimo parágrafo do segundo tópico do texto, os autores afirmam que o contrato didático recebe influências de caráter epistemológico e histórico-social. Na prática, no entanto, comportando-se de forma dinâmica, poderá ser alterado em função das demandas cognitivas e de fatores internos e externos. Contudo, existe também um aspecto que permanecerá sempre inalterado porque a assimetria que há no interior da relação didática e a hierarquização dos papéis dos diferentes sujeitos – o professor e o aluno – impedirão alterações maiores e mais significativas, o que garante a manutenção do contrato. E eles, então,  afirmam

“A evidência disso se dá no momento em que o professor administra o tempo didático e domina o conteúdo, responsabilizando-se pelo desenho do contrato e pela forma como a relação se efetivará”. 

A frase que coloquei em destaque levou-me a questionar se essa assimetria teria a mesma rigidez e permanência nos contratos didáticos que firmaremos com os servidores públicos, nossos futuros alunos (mas também colegas), quando estivermos ministrando os nossos cursos no futuro. A impressão que tenho é de que esse aspecto terá uma face mais flexível e que o nosso papel de mediadores será muito acentuado porque muitas decisões terão de ser negociadas. Ou eu estaria enganada? 

Acredito que a situação de negociação será permanente, gerando mudanças no roteiro, em função do presumível amadurecimento dos sujeitos envolvidos – os servidores em formação. O diálogo entre os dois atores será mais equilibrado, portanto. A assimetria característica da relação pedagógica regular e acadêmica deverá ser naturalmente atenuada, em uma relação muito mais dialética que impositiva.

Nosso papel, na formação da nova mentalidade do “servidor do público” aqui no GDF pressupõe que estaremos preocupados em formar um cidadão crítico e que seria capaz de dizer o que é admissível e não-admissível, capaz de questionar as próprias verdades em um exercício de autorreflexão e autocrítica. Todo servidor é, antes de tudo um cidadão. No desempenho de suas funções não poderá divorciar-se desse importante papel na construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. Só assim, esse servidor seria capaz de uma postura que contribua de fato para o desenho de um projeto de cidadania coerente com a cara que gostaríamos que Brasília tivesse para mostrar ao Brasil e ao mundo. Uma capital que fosse motivo de orgulho para o país e que fosse exemplo de que um mundo melhor e mais justo é possível de ser construído.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

REFLEXÃO: COMO ATUO NA MINHA RELAÇÃO COM O OUTRO EM FORMAÇÃO

Esta reflexão foi motivada e inspirada nas contribuições dos colegas do curso no fórum do Módulo V: Elke, Maria Elice, Elaine, Marlene, Iranildes e Kelle e também da leitura do texto sobre o Contrato Didático da nossa bibliografia e de um texto da Universidade de Lisboa sobre a avaliação auto-regulada. Tentei construir um texto para explicitar a reflexão dialógica por que me conduzi para a fundamentação de algumas conclusões que gostaria de compartilhar com os eventuais leitores deste blog.

Realmente “não se pode negar que a sala de aula é um espaço de interação onde se desenvolvem diversos tipos de aprendizagens“. Tal ambiente é um desafio para o posicionamento livre dos conceitos e pré-conceitos sobre os dois sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem. E ambos devem ser considerados sujeitos ativos - protagonistas dessa interação pedagógica. No entanto, o educador nunca pode abrir mão de seu papel de mediador. Nossa colega tem razão: “Nesse contexto, o diálogo assume papel fundamental como elemento norteador para propiciar a construção do conhecimento por meio da troca de experiências e da valorização dos conhecimentos” que circulam na sala de aula, embora a relação assimétrica seja algo inquestionável.

Porém, como afirmou outra colega: “O ponto de equilíbrio entre o ensinar do professor e o aprender do aluno é uma linha extremamente vulnerável.” E, eu acrescentaria, muito tênue também. Gerenciar o paradoxo natural do contrato didático exigirá responsabilidade, atenção e cuidado, por parte do professor, durante todo o tempo.

A proposta deste nosso curso é provocadora, exigindo de nós transitarmos de um lado e do outro, uma vez que somos potenciais formadores e também alunos. Nossa formação depende fundamentalmente da qualidade da nossa relação com o outro – nossos tutores, colegas e futuros alunos.

A proximidade (não-distanciamento) é fundamental, mas não deverá se confundir com a camaradagem que provoque desrespeito ou que descaracterize os papéis específicos dos dois sujeitos – há responsabilidades e expectativas muito específicas, distintas na relação didática em questão. Contudo, também é verdade que “existe uma base afetiva permeando essas relações.”

A qualidade e talvez também a intensidade da aproximação nessa relação dialógica são fundamentais e fornecerão o background e o espaço para a ação adequada, tanto do formador como do formando, viabilizando o sucesso do trabalho pedagógico, preservadas as regras básicas do contrato didático. Como lecionam os autores do texto, a ruptura ocorre no momento em que o sistema de obrigações recíprocas é desrespeitado, somando-se ainda a quebra de confiança entre os participantes do processo.

No texto do autor português sobre as questões inerentes à autoavaliação regulada, que é definida como “um acto de comunicação, de interacção entre pessoas e objectos de avaliação, que ocorre num dado contexto social e é por ele determinado (Leal, 1992)”, percebi algumas dicas importantes relacionadas ao conceito de contrato didático. O autor português esclarece: “Entendemos por regulação da aprendizagem todo o acto intencional que, agindo sobre os mecanismos de aprendizagem, contribua directamente para a progressão e/ou redireccionamento dessa aprendizagem.”. Conceitos como a avaliação formativa; a co-avaliação entre os pares; e a auto-avaliação precisam ser compreendidos e assimilados. O autor enfatiza ainda: “a regulação interactiva, é potencialmente mais promissora porque é uma regulação atempada e se pode tornar mais significativa para o aluno.”. A auto-avaliação passa por um processo consciente de reflexão sobre o que está a fazer e como se está a fazer, o aluno terá de desenvolver a capacidade de auto-questionamento. A apropriação dos critérios de avaliação da tarefa é condição necessária para desenvolver a auto-regulação. Nesse texto, defende-se ainda que “o papel do professor é mais uma vez central, cabendo-lhe a responsabilidade de construir um conjunto diversificado de contextos facilitadores para o desenvolvimento da autoavaliação, tornando-se o aluno cada vez mais autónomo.

Assim, outro aspecto importante discutido pelo autor diz respeito à abordagem positiva do erro, que em um primeiro momento, deve passar pela compreensão da situação. O erro é uma rica fonte de informação para a compreensão de situações de aprendizagem, diz-nos ainda. “O objectivo é que o aluno seja ele próprio capaz de fazer a sua autocorreção, sendo para isso necessário compreender o erro para criar condições para o ultrapassar .” Nesse momento, acontece a verdadeira aprendizagem. O papel de mediador que cabe ao professor implica ajudar e orientar o aluno na interpretação dos significados, na formulação de hipóteses explicativas do raciocínio do aluno. Não podemos nos esquecer de que a autoavaliação passa por um processo consciente de reflexão, fundamental ao sujeito ativo do texto de Pedro Demo, visto por nós anteriormente. Portanto, é fundamental “corresponsabilizar os alunos no processo avaliativo, ajudando-os a apropriarem-se mais facilmente desses mesmos critérios.”.

O autor português citando Perrenoud (1999, p. 96) ainda nos ensina: “Toda a acção educativa só pode estimular o auto-desenvolvimento, a autoaprendizagem, a auto-regulação de um sujeito, modificando o seu meio, entrando em interacção com ele.”.

No texto sobre o contrato didático, vimos que “Essa categoria dinâmica do contrato não pode ser confundida com ruptura, pois ainda permanecem definidos os papéis do professor e do aluno no processo e a confiança mútua não foi abalada.”, uma vez que o professor e o aluno ocupam lugares distintos diante do saber, com graus de responsabilidade diferenciados. E ainda: “o professor, que se coloca como mediador no processo de ensino, em uma perspectiva dialética, percebe que a constituição do sujeito se dá nas relações entre os sujeitos, pois já temos nossa subjetividade, fruto das relações. Assim, o aluno não é mais visto como alguém que está “vazio” e precisa ser “preenchido” por conhecimentos.”.

O objetivo da escola é formar o aluno crítico, tornando-o capaz de analisar informações, tomar posição, questionar suas próprias verdades, decidir e não simplesmente se opor. Enfim, ser capaz de inserir-se ao contexto social, historicamente construído nas diversas relações de interação.

Assim, finalizo a minha reflexão com o ultimo parágrafo do nosso texto do atual módulo:

“Dessa forma, a perturbação do Contrato Didático não consiste simplesmente em propor desafios ao aluno, pois, enquanto estes apenas aumentam o grau de dificuldade dos problemas, a perturbação difere qualitativamente na medida em que está voltada para o gerenciamento das imposições paradoxais do contrato. Ademais, procura reorientar a relação entre professor, saber e aluno, propondo alguns questionamentos, tais como: que aluno queremos formar e para qual sociedade? “

terça-feira, 28 de junho de 2011

ENDOSSANDO FERNADO PESSOA

"....Meus amigos são todos assim: metade bobeira metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice.

Crianças para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa...."
(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

E AINDA DIZEM QUE NÓS SOMOS OS CIVILIZADOS.

Um antropólogo estava estudando os usos e costumes de uma tribo e, quando  terminou seu trabalho, propôs uma brincadeira para as crianças. Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e colocou debaixo de uma árvore. Aí chamou as crianças e propôs uma competição: quem corresse e chegasse primeiro ganharia o cesto.

As crianças se posicionaram na linha que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "já!", instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.

O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou por que elas tinham ido todas juntas, se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.

Elas simplesmente responderam:
Ubuntu, tio. Como uma de nós  poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?

Ubuntu significa: "
Sou quem sou, porque somos todos nós!"
“A matéria-prima do educador não é o conhecimento;
é a pessoa humana que conhece, que aprende e ensina”
Madalena Freire

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A DIFÍCIL PRÁTICA DO BELO DISCURSO DE PEDRO DEMO

Isto aqui é muito bom, não?

    "Saber convencer, sem vencer";
     Saber fundamentar, sem ser dono da verdade;
    consolidar ideias, no entanto sem que elas sejam fixas, deixando-as abertas;
    "Saber escutar";
    e "ter outro como parceiro e não como dominado."

FONTE: Fala de Pedro Demo - PESQUISA  COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO
Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=Vra4hclt7kw
               Acesso em 15/07/2011 às 16 horas e 12 minutos.

domingo, 12 de junho de 2011

Mapas conceituais e Teoria de Ausubel

Pessoal, encontrei este texto na Web e compartilho com vocês:

Para que a aprendizagem significativa ocorra é preciso entender um processo de modificação do conhecimento, em vez de comportamento em um sentido externo e observável, e reconhecer a importância que os processos mentais têm nesse desenvolvimento. As idéias de Ausubel também se caracterizam por basearem-se em uma reflexão específica sobre a aprendizagem escolar e o ensino, em vez de tentar somente generalizar e transferir à aprendizagem escolar conceitos ou princípios explicativos extraídos de outras situações ou contextos de aprendizagem.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Tá chovendo em Brasília. que delícia!!!




Chove na cidade

Brasília renasce
Respira.
Chove em Brasília!
A cidade se enche
de flores e de luz.

Cartões, e-mails
se espalham.
Um convite eterno,
e sempre renovado:
amigos, parentes,
brasileiros,
venham ver!

Chove em Brasília
O Congresso vai
entrar em recesso.
E a cidade entregue
aos legítimos moradores,
lavará sua alma.

Chove no Planalto Central
Brasília revive
e volta às suas origens.

O cidadão pobre
não tem férias no Nordeste,
nem férias no Rio,
muito menos na Europa.
Ele fica guardando
a cidade vazia.

O bico, o dinheirinho extra
mais o décimo terceiro
vão colocar sua vida
em dia. Ou quase.

As férias financiarão
a viagem da família
a Trindade e a promessa
do Divino Pai Eterno.
Finalmente cumprida.
E ainda o peru do Natal,
Um frangão bombado!

Chove em Brasília!
Tão verde e molhada
fazendo brotar
uma esperança teimosa,
com cheiro de renascimento.

E você ainda resiste
e não vem conhecê-la.
Quem sabe nas chuvas
do ano que vem?

Poesia de minha autoria, publicada no Overmundo em Nov./2007.


Reflexão sobre o homem/mulher verdadeiramente educados



ACABAMOS NOS PARECENDO COM O QUE IMITAMOS

Você é realmente educado ou contenta-se em parecer sê-lo? Os homens verdadeiramente educados  são naturalmente elegantes. E, são pessoas mais humanas, necessariamente.

Um dos traços comuns aos homens e mulheres educados é que a sua companhia promove o bem estar das pessoas com que se relacionam (como marido, filho, namorado, amigo).  Ele sabe comportar-se com delicadeza: sabe até onde ir, como ir. É verdadeiramente amável, preocupa-se e ocupa-se em proporcionar bons momentos  a todos aqueles aos quais está ligado: amigos, esposa, filhos, pais etc

Indiscutivelmente, o homem educado é um cara refinado. Desenvolvido. Tem interesses nobres e humanos. Não fala tanto de si mesmo porque tem o coração aberto aos demais. Não perde o autocontrole facilmente e não fala descortesmente com ninguém. Não tem como óbvio que os outros o devam servir. Não é arrogante nem orgulhoso. Parece mesmo portar-se de modo a desempenhar dignamente o seu papel de homens. Tal comportamento, que o diferencia de tantos outros, se baseia em suas próprias convicções e não em projeções. Nunca com o objetivo de "conquistarem" alguém. Isso  lhes dá muita naturalidade aos gestos e atitudes. Ele é, além de tudo, um homem compassivo e misericordioso.

O homem educado é especialmente gentil para com os mais frágeis, em qualquer aspecto: posição, idade, cultura, dinheiro. E ele jamais se sente inferior quando está com alguém que lhes seja superior em qualquer um desses aspectos.

É corajoso, um cidadão consciente, participativo, solícito e gentil, em todas as circunstâncias e principalmente com os mais próximos – antes de tudo, para com os seus familiares. É um cara atencioso: não deixa ninguém esperá-lo por alguns minutos  e muito menos por uma noite inteira – nem a amante, nem o amigo, ou os velhos pais. Hoje a comunicação fácil que o desenvolvimento da tecnologia possibilita não há desculpas para tal atitude, uma vez que essa facilidade de comunicação é uma forte aliada para essa espécie tão rara.

Disciplina normativa mais do que coerciva, que visa menos à ordem do que a certa sociabilidade amável – disciplina não de polícia, mas de polidez. É por ela que, imitando as maneiras da virtude, talvez tenhamos uma oportunidade de virmos a ser virtuosos. “A polidez”, observava La Bruyère, “nem sempre inspira a bondade, a equidade, a complacência, a gratidão; pelo menos dá uma aparência disso e faz o homem parecer por fora como deveria ser por dentro.” Por isso ela é insuficiente no adulto e necessária na criança. É apenas um começo, mas o é. Dizer “por favor” ou “desculpe” é simular respeito; dizer “obrigado” é simular reconhecimento. É aí que começam o respeito e o reconhecimento. Como a natureza imita a arte, assim a moral imita a polidez, que a imita. A polidez é essa aparência de virtude, de que as virtudes provêm. [...] Portanto, a polidez salva a moral do círculo vicioso (sem a polidez, seria necessário ser virtuoso para poder tornar-se virtuoso) criando as condições necessárias para seu surgimento (COMTE-SPONVLILLE, 1999, p. 7)

Essa é uma reflexão incipiente, mas um primeiro passo para quem quer ser um príncipe de fato e não apenas uma imitação mal acabada.

Observações:

[1]Se somos capazes de uma imitação tão perfeita, corremos o risco de nos macaquear a tal ponto que nos tornaremos o simulacro daquilo que queremos parecer aos outros, por quais motivos forem. Isto me lembra do Módulo II do Curso beOne. Temos de estar muito atentos para não alimentar um gorila que quer se apossar de nosso corpo humano.
[1] Tudo que está aqui se refere genericamente ao homem, mas, sobretudo às mulheres, às quais lhes é dado o papel mais decisivo na educação dos homens e mulheres de nossa sociedade.